Bicicleta como meio de transporte, dia 5: um balanço
Por cinco dias, não tive carro. De segunda a sexta (hoje), vim trabalhar de bicicleta, acompanhado de meu amigo e tutor Leandro (ontem, Aylan também nos acompanhou). À noite, voltamos juntos - algumas vezes acompanhados de outros voluntariosos ciclistas (João, Mig e Márcia). E a idéia era avaliar como eu me dava com a bicicleta, se valeria a pena encostar meu carro e passar a me locomover de bicicleta.
Resumindo esses cinco dias em números: pedalei por 55,89 quilômetros, em um total de 4 horas e 12 minutos... Média de velocidade: 13,25 km/h - muito longe de um Lance Armstrong, eu admito, mas velocidade não era uma meta.
(Foram 32 buzinadas, uma média de seis por dia, que não me incomodaram - eu as contei por diversão. Aliás, logo que eu saio de casa, após a primeira curva, tenho a maior subida do percurso. Hoje, enquanto eu pedalava fortemente, me esforçando para não ter que descer e empurrar a bicicleta - embora não haja demérito algum nisso, era apenas uma consquista pessoal -, um senhor que atravessava a rua a pé parou para ver o meu esforço. Quando, lasso e suado, terminei a subida ainda sobre a bicicleta, ele me disse: "Oba! Conseguiu!". Foram duas palavras e um sorriso que fizeram muito mais efeito em mim do que as 32 buzinadas anteriores somadas.)
Quanto às minhas conclusões... Vir de bicicleta, como moro perto do meu trabalho, demora mais do que vir de carro: 30 minutos em média, contra 25 minutos de ônibus (em um dia normal) e 20 minutos de carro (idem). Também cansa mais, especialmente na volta, ladeira acima até Perdizes.
Por outro lado: pedalar é muito mais saudável e divertido. Entre vir de carro ou de bicicleta, colocando à parte o inevitável gosto da novidade que sempre torna mais palatável o inédito ou quase inédito, prefiro vir de bicicleta.
Pedalar também é mais econômico. Uma vez que o capital inicial é investido (bicicleta, capacete, buzina, luz etc), em poucos meses esse dinheiro é alcançado pelas quantias que teriam sido gastas em estacionamentos e gasolina - sem falar em manutenção.
Entretanto... Entretanto nesta semana não choveu, não fui jogar bola (a quadra é longe!) e não tive programação extra (ir ao cinema, sair com a namorada etc.). Então, mesmo após cinco dias, ainda não pus à prova as dificuldades que posso encontrar quando (e se) estiver me locomovendo de bicicleta.
Estou dividido... mas tenho uma impressão e uma certeza.
A impressão que tenho é que vou acabar aderindo ao transporte por bicicleta, mas que preciso testar um pouco mais. Vivenciar mais algumas situações - um pneu furado, uma chuva, essas coisas...
A certeza é que, para mim, valeu muito a pena tentar.

COMUNICAR ERRO
...cheguei atrasado para a conversa. Saí correndo de casa para não chegar atrasado aqui no UOL e, quando vi, Leandro e a simpática dona Maria Lúcia, 66 anos, contando que pedala desde 1988, que mora em Perdizes (mesmo bairro que eu), que encara ladeiras acima e abaixo numa boa (confesso que fiquei impressionado) e que a bicicleta dela tem uma só marcha, diferente da bicicleta que me emprestaram, que tem mais marchas do que a Hidra de Lerna tem cabeças.
Vendedor - Três carros a menos, hein?
A única vez em que vi um motorista de carro puxar assunto com outro (estou excluindo os insultos - ninguém ofende uma pessoa que não conhece para iniciar uma amizade) foi na rua Turiassu, aqui em São Paulo. Eu estava dentro de um ônibus que não saía do lugar havia cerca de meia hora; na outra mão, um cidadão estava vermelho-quase-vinho de tão estressado - suponho que também estivesse parado por cerca de 30 minutos. A certo momento, o motorista do carro baixou o vidro de sua janela e gritou para o motorista do ônibus: "você é que é macho, viu? Muito macho!". Acredito que ele se referia ao fato de um motorista de ônibus passar o dia inteiro encarando o trânsito paulistano.
Perguntamos o básico: há quanto tempo ela pedala, do que ela gosta, do que ela não gosta.
Eles não me conheciam e foram bem simpáticos nos cerca de 20 minutos em que seguimos juntos. Passamos em frente à casa do João, que se despediu e entrou. Seguimos em três e, a poucos minutos do destino, a minha casa, encontramos dois ciclistas que não conhecíamos, um rapaz e uma moça (que também não se conheciam entre si). Houve um momento "puxar assunto" bem interessante e, quando percebi, estava chegando em casa cercado por quatro ciclistas. À frente, Leandro e o rapaz, conversando entre si; um pouco atrás, Mig e a moça; por último, eu tentando me concentrar com aquelas marchas todas (21, na bicicleta que o Leandro me emprestou), tomando um baita cuidado para não cair.
Essas diferenças são facilmente explicáveis: meu "guia" Leandro e eu optamos por um caminho maior, mas mais arborizado. Afinal, uma das vantagens de andar de bicicleta é não ter apenas a preocupação em chegar, mas também a possibilidade de desfrutar o caminho.
- nos três percursos que já fiz (ir para o trabalho ontem; voltar para casa ontem; vir para o trabalho hoje), pensei ter feito todos em 15 minutos, aproximadamente. Três vezes errado: foram 34 minutos na ida de ontem, 37 minutos na volta de ontem e 32 minutos na vinda de hoje. Talvez por ser mais agradável que dirigir, ou talvez por evitar o estresse de dirige, pára, dirige, pára do trânsito paulistano, acabei não percebendo o tempo passando. O tempo é relativo... (Eu batizaria essa idéia de Teoria da Relatividade, mas parece que Albert Einstein chegou um pouco antes; além disso, tenho certeza de que o mundo inteiro já sabe que quando fazemos algo agradável [jogar futebol, por exemplo], o tempo "voa", e quando fazemos algo contrariados [um megacongestionamento, por exemplo], o tempo "se arrasta".)
Para começar pelo início: não foi uma mudança feita de uma hora para a outra. Não gosto muito de dirigir, apenas acho mais prático. Prefiro ir de ônibus, lendo, a dirigir e ficar estressado com a agressividade e a estupidez de uns poucos motoristas, mas que fazem barulhos e estragos como se fossem muitos. Entretanto, há lugares para onde ir de carro é mais prático do que de ônibus, como o lugar em que jogo bola semanalmente e a casa da minha namorada. Acabo, portanto, passando mais tempo dentro do meu carro do que de um ônibus.
O semáforo estava fechado (aquela buzinada, como as oito anteriores, foi inútil). Leandro se aproximou do motorista e perguntou se havia algum problema. O motorista foi rápido: "vá pedalar na calçada!" Afinal, na cabeça dele, lugar de bicicleta é na calçada, com os pedestres, e não na rua, atrasando em dois segundos o tempo que ele levaria para chegar ao semáforo fechado, onde ficaria inevitavelmente parado.




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