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Blog do Especial de Trânsito

Cinco pessoas, cinco dias sem carro

26/09/2008

Bicicleta como meio de transporte, dia 5: um balanço

Por cinco dias, não tive carro. De segunda a sexta (hoje), vim trabalhar de bicicleta, acompanhado de meu amigo e tutor Leandro (ontem, Aylan também nos acompanhou). À noite, voltamos juntos - algumas vezes acompanhados de outros voluntariosos ciclistas (João, Mig e Márcia). E a idéia era avaliar como eu me dava com a bicicleta, se valeria a pena encostar meu carro e passar a me locomover de bicicleta.


Ah, a ladeira...Resumindo esses cinco dias em números: pedalei por 55,89 quilômetros, em um total de 4 horas e 12 minutos... Média de velocidade: 13,25 km/h - muito longe de um Lance Armstrong, eu admito, mas velocidade não era uma meta.


(Foram 32 buzinadas, uma média de seis por dia, que não me incomodaram - eu as contei por diversão. Aliás, logo que eu saio de casa, após a primeira curva, tenho a maior subida do percurso. Hoje, enquanto eu pedalava fortemente, me esforçando para não ter que descer e empurrar a bicicleta - embora não haja demérito algum nisso, era apenas uma consquista pessoal -, um senhor que atravessava a rua a pé parou para ver o meu esforço. Quando, lasso e suado, terminei a subida ainda sobre a bicicleta, ele me disse: "Oba! Conseguiu!". Foram duas palavras e um sorriso que fizeram muito mais efeito em mim do que as 32 buzinadas anteriores somadas.)


Quanto às minhas conclusões... Vir de bicicleta, como moro perto do meu trabalho, demora mais do que vir de carro: 30 minutos em média, contra 25 minutos de ônibus (em um dia normal) e 20 minutos de carro (idem). Também cansa mais, especialmente na volta, ladeira acima até Perdizes.


Por outro lado: pedalar é muito mais saudável e divertido. Entre vir de carro ou de bicicleta, colocando à parte o inevitável gosto da novidade que sempre torna mais palatável o inédito ou quase inédito, prefiro vir de bicicleta.


Pedalar também é mais econômico. Uma vez que o capital inicial é investido (bicicleta, capacete, buzina, luz etc), em poucos meses esse dinheiro é alcançado pelas quantias que teriam sido gastas em estacionamentos e gasolina - sem falar em manutenção.


Entretanto... Entretanto nesta semana não choveu, não fui jogar bola (a quadra é longe!) e não tive programação extra (ir ao cinema, sair com a namorada etc.). Então, mesmo após cinco dias, ainda não pus à prova as dificuldades que posso encontrar quando (e se) estiver me locomovendo de bicicleta.


Estou dividido... mas tenho uma impressão e uma certeza.


A impressão que tenho é que vou acabar aderindo ao transporte por bicicleta, mas que preciso testar um pouco mais. Vivenciar mais algumas situações - um pneu furado, uma chuva, essas coisas...


A certeza é que, para mim, valeu muito a pena tentar.

Por Pedro Cirne, zona oeste

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Bicicleta como meio de transporte, dia 5: agradecimentos

Esta semana-sem-carro-e-com-bicicleta teria sido outra sem o onipresente Leandro, meu tutor. De segunda a quinta, ele foi até a minha casa me escoltar até o UOL, me dando dicas de todo tipo (motoristas não dão setas; tá na hora de mudar a marcha; coloca um casaco para não passar frio) e, ainda por cima, me escoltando no retorno. É preciso ter muita paciência e muito amor ao hobby para fazer o que ele fez.
Fica aqui, então, meu muito obrigado.


Além disso, foi ele quem me emprestou a bicicleta, o capacete, as luvas e o protetor de canelas, que na verdade não protege diretamente, mas que reflete os faróis dos carros e, portanto, torna meu percurso mais seguro. Fica aqui, então, meu muito obrigado, Leandro - de novo.


Um abraço também ao fotógrafo Flávio Florido, que acompanhou quatro dos cinco blogueiros deste Blog do Especial de Trânsito - Cinco pessoas, cinco dias sem carro para clicar as fotos do álbum de Cinco pessoas, cinco dias sem carro.


Também agradeço aos ciclistas que não me conheciam, mas que me acompanharam, em uma grande demonstração de simpatia, em trechos do meu percurso: João, Mig, Aylons e Márcia. Muito obrigado.


E, claro, obrigado a você internauta, que acompanhou a experiência que meus colegas Gabriela, Thays, Alessandro e Irineu neste blog Blog do Especial de Trânsito - Cinco pessoas, cinco dias sem carro. Muitíssimo obrigado!

Por Pedro Cirne, zona oeste

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Bicicleta como meio de transporte, dia 5: as cores de um marronzinho

Alguns posts atrás, contei aqui no blog que o operador de tráfego da CET é conhecido aqui em São Paulo como marronzinho. Aproveitei a perguntei a você, internauta, como o operador de tráfego é conhecido em sua cidade (ou Estado) e descobri que há um arco-íris de apelidos para os marronzinhos. Aqui estão os que nomes que vocês, internautas, me ensinaram (sei que ainda há mais nomes a aprender):

- em Recife-PR, eles são os homens de azul, azulzinhos ou periquitos azuis (obrigado, Juliana)
- em Curitiba-PR, são os periquitos, pelo uniforme verde e preto (obrigado, Allan e João Paulo)
- em São Paulo-SP, são os marimbondos (eu nunca tinha ouvido essa... obrigado, Frank)
- em Caçapava-SP, os marronzinhos são... marronzinhos, mesmo (obrigado, Celina)
- em Belo Horizonte-MG, são os chumbinhos (obrigado, Carlos Maciel)
- em Teresina-PI, são os azulzinhos (obrigado, Nilson)
- em Campinas-SP, são os amarelinhos (obrigado, Laura, Gabriel e André)
- em São Carlos-SP, também amarelinhos (obrigado, Rosangela)
- em Cuiabá-MT, também amarelinhos (obrigado, Marcelo)
- em Campo Grande-MS, também amarelinhos (obrigado, Luiz Fernando) - a cor amarelo recebe a medalha de ouro como a mais citada pelos internautas!

Por Pedro Cirne, zona oeste

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25/09/2008

Bicicleta como meio de transporte, dia 4: meu caro marronzinho da CET, o que eu posso e o que não posso fazer?

Após três dias encarando ladeiras de bicicleta, estou ficando mais à vontade com meu pedal. Fico menos preocupado em cair e tento prestar mais atenção ao meu redor. E isso se reflete nas três conversas que tive hoje, a caminho do UOL: a dona Maria Lúcia, 66 anos (20 deles sobre duas rodas); o vendedor ambulante; e o marronzinho.


Conversa com dona Maria Lúcia

A simpática dona Maria Lúcia...cheguei atrasado para a conversa. Saí correndo de casa para não chegar atrasado aqui no UOL e, quando vi, Leandro e a simpática dona Maria Lúcia, 66 anos, contando que pedala desde 1988, que mora em Perdizes (mesmo bairro que eu), que encara ladeiras acima e abaixo numa boa (confesso que fiquei impressionado) e que a bicicleta dela tem uma só marcha, diferente da bicicleta que me emprestaram, que tem mais marchas do que a Hidra de Lerna tem cabeças.


Tivemos que sair pedalando apressadamente para que eu não chegasse atrasado aqui, mas como dona Maria Lúcia e eu somos do mesmo bairro, acho que ainda nos encontraremos para continuar o papo.


Conversa com o vendedor ambulante
Leandro (meu tutor), Aylons (amigo dele, que simpaticamente se ofereceu para ajudar na minha "escolta" hoje) e eu estávamos parados em um semáforo na rua Atlântica, esperando para cruzar a avenida Brasil, quando fomos abordados por um vendedor ambulante de flanelas. Muito simpático, ele chegou falando alto conosco:


Vendedor - Três carros a menos, hein?


Eu - Sim!


Vendedor - Vocês não vão acreditar, mas conheci um cara que veio de bicicleta do Peru até o Brasil!


Eu - ...e como você descobriu que ele vinha de tão longe?


Vendedor - Pelas mochilas, e pelo fato de a bicicleta dele ter umas bandeiras penduradas. Uma figura, o cara...


Eu tinha mais perguntas, mas o semáforo, este eterno interruptivo de diálogos imortalizado por Paulinho da Viola em "Sinal Fechado", abriu e nós seguimos.


Conversa com o marronzinho

A poucos metros do UOL, encontrei dois marrozinhos da CET fiscalizando a esquinda das avenidas Rebouças e Brigadeiro Faria Lima. Marrozinho, como bem explica o site da CET, é o apelido dos operadores de tráfego aqui em São Paulo - não sei que apelidos eles têm em outras cidades, e agradeço se algum internauta me ensinar.


Enfim, me aproximei dele e perguntei:


Eu - Oi, estou começando a pedalar por São Paulo, você sabe dizer o que posso e o que não posso fazer?


Marronzinho - Pedale pela rua, lugar de bicicleta não é na calçada...


Eu - Faço isso desde o primeiro dia, mas um caminhão quase atropelou meu amigo na segunda-feira e ainda nos mandou pedalar na calçada...


Marronzinho - Ele está errado. E eu vejo assim: o irmão maior tem que cuidar do irmão menor. Ele, o caminhão, tem que tomar cuidado com os menores.


Eu - E o que eu não posso fazer? Quando eu estou errado e posso, em tese, ser multado?


Marronzinho - Nós não olhamos para bicicletas, apenas para os carros.


Eu - Mas não há leis sobre isso? Por exemplo, me disseram que um carro deve manter 1,5 metro de distância de uma bicicleta. E se ele desrespeitar isso? Pode ser multado?


Marronzinho - Essa distância de 1,5 metro deve ser mantida de qualquer veículo, inclusive de bicicletas. Mas na verdade, ele não pode ser multado. É uma lei, mas eu não poderia multá-lo nem se quisesse. Não há nem mesmo talão para isso.


Eu - Não?


Marronzinho - Não. Você pode processá-lo se sentir prejudicado, mas ele não será multado.


Eu - E você tem alguma dica para mim, enquanto ciclista urbano que está começando?


Marronzinho - Tome cuidado.


Depois, fui consultor o site da CET de São Paulo (http://www.cetsp.com.br/). Procurei nas seções "As dúvidas mais frequentes da população sobre fiscalização, multas, valores..." e "Resumo das infrações do Código de Trânsito", além de uma olhada por cima em outras seções. Não achei menção alguma a "bicicleta", "ciclista" ou "bike". Deve estar em algum lugar, mas ainda não achei. Mais tarde, tento de novo.


Simplificar uma conversa é difícil, pois tira alguns detalhes (o gesticular das mãos, as entonações e o irreproduzível brilho no olhar de quem fala de uma paixão), mas vou tentar resumir o que aprendi os três diálogos:


Dona Maria Lúcia: idade e ladeiras, somados, não intimidam um ciclista motivado.

Vendedor: se um cara veio de Lima a São Paulo de bicicleta, acho que a distância também não intimida um ciclista motivado. É longe, mas uma hora, chegamos lá.

Marronzinho: tomar cuidado.

Por Pedro Cirne, zona oeste

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24/09/2008

Bicicleta como meio de transporte, dia 3: você já fez amigos enquanto dirigia um carro?

No meu primeiro dia dessa "semana-ciclista", meu tutor Leandro me perguntou: "você já fez amigos enquanto dirigia um carro?". A resposta é não. Aliás, nunca puxaram assunto comigo enquanto eu dirigia, exceto para pedir dinheiro, tentar vender produtos ou me perguntar se eu faço parte de uma banda de rock (não, não faço).


A pequena Helena... uma futura ciclista?A única vez em que vi um motorista de carro puxar assunto com outro (estou excluindo os insultos - ninguém ofende uma pessoa que não conhece para iniciar uma amizade) foi na rua Turiassu, aqui em São Paulo. Eu estava dentro de um ônibus que não saía do lugar havia cerca de meia hora; na outra mão, um cidadão estava vermelho-quase-vinho de tão estressado - suponho que também estivesse parado por cerca de 30 minutos. A certo momento, o motorista do carro baixou o vidro de sua janela e gritou para o motorista do ônibus: "você é que é macho, viu? Muito macho!". Acredito que ele se referia ao fato de um motorista de ônibus passar o dia inteiro encarando o trânsito paulistano.


Enfim: dado o aviso do Leandro, passei a observar como se dá a opinião entre ciclistas que não se conhecem, mas que acabam conversando quando se encontram por acaso. Vi duas pequenas histórias nesses três dias.


História 1

Hoje, enquanto atravessávamos a Vila Madalena a caminho do UOL, Leandro e eu encontramos uma ciclista pedalando com sua filhinha em uma cadeirinha (foto ao lado). Leandro, ciclista mais descolado, perguntou se ela podia parar para conversar um pouco conosco. Ela topou.

Mariana e HelenaPerguntamos o básico: há quanto tempo ela pedala, do que ela gosta, do que ela não gosta.


Seu nome é Mariana, e ela tem 21 anos; sua filha, Helena, tem um ano e sete meses. Mariana pedala desde criança e o faz por prazer. Helena não se incomoda de ir de bicicleta: segundo a mãe, ela até dorme de vez em quando.


Mariana apontou dois problemas. O primeiro eu já vinha observando nas minhas pedaladas por aí: a agressividade dos motoristas. Eles tiram fina, buzinam, ignoram os ciclistas. De fato, incomoda. Hoje, por exemplo, um carro tirou uma "fina" do Leandro, quase desequilibrando-o. E ontem à noite, voltando para casa, quase fui tocado por uma moto (na rua Teodoro Sampaio) e por um ônibus (na av. Henrique Schaumann).


O segundo problema foi novidade para mim: a dificuldade em cruzar o rio Pinheiros. Segundo ela, não há ciclovias na maioria das pontes - ou seja, é bem inseguro para um ciclista passar, que dirá para uma ciclista com uma criança...


Tenho aprendido muito com esses dias de ciclismo por São Paulo, mas ainda assim não é uma situação muito próxima da maioria dos ciclistas: moro perto do trabalho e não tenho que atravessar pontes (ou viadutos) ao me locomover.


História 2

Na noite do primeiro dia, Leandro trouxe dois amigos, João e Mig, para me escoltar no caminho para casa. Éramos, portanto, quatro ciclistas.

Ladeira acima, fazendo esforço...Eles não me conheciam e foram bem simpáticos nos cerca de 20 minutos em que seguimos juntos. Passamos em frente à casa do João, que se despediu e entrou. Seguimos em três e, a poucos minutos do destino, a minha casa, encontramos dois ciclistas que não conhecíamos, um rapaz e uma moça (que também não se conheciam entre si). Houve um momento "puxar assunto" bem interessante e, quando percebi, estava chegando em casa cercado por quatro ciclistas. À frente, Leandro e o rapaz, conversando entre si; um pouco atrás, Mig e a moça; por último, eu tentando me concentrar com aquelas marchas todas (21, na bicicleta que o Leandro me emprestou), tomando um baita cuidado para não cair.


Havia algo curioso naquela cena: os dois ciclistas (Leandro e Mig) já acostumados e seguros estavam abertos o suficiente para prestar atenção no que vem de fora, como aqueles dois desconhecidos que se aproximaram de nós. E o terceiro ciclista, eu, voltado para o próprio umbigo, pensando apenas em mim mesmo e em seguir meu caminho sem cair, perdi a oportunidade de prestar atenção ao meu redor e de conhecer novas pessoas. Se não estivesse tão cansado de pedalar ladeiras acima por cerca de meia hora, teria pensado no quanto aquela situação poderia servir como metáfora para a vida.

Por Pedro Cirne, zona oeste

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23/09/2008

Bicicleta como meio de transporte, dia 2: teoria do caos, teoria da relatividade e complexo de inferioridade

Meu segundo dia de vir para o trabalho pedalando em vez de dirigindo teve alguns números em comum com o primeiro (ontem): demorei 32 minutos (ontem, 34 minutos); pedalando, sem contar o tempo parado em semáforos, foram 24 minutos e 20 segundos (ontem, 25 minutos e 40 segundos); percorri 6,36 km (ontem, 5,3 km); minha média de velocidade foi 15,4 km/h (ontem, 12,3 km/h); e meu pico de velocidade foi de 28,2 km/h (ontem, 24 km/h).

 

Leandro e eu entre árvores e carrosEssas diferenças são facilmente explicáveis: meu "guia" Leandro e eu optamos por um caminho maior, mas mais arborizado. Afinal, uma das vantagens de andar de bicicleta é não ter apenas a preocupação em chegar, mas também a possibilidade de desfrutar o caminho.

 

Assim, trocamos as ruas apertadas da Vila Madalena e Pinheiros (como a Arthur de Azevedo, onde um motorista de caminhão freou bruscamente em cima do Leandro, ontem) pelas ruas mais arborizadas de Jardins (como a Sampaio Vidal). Resultado prático: menos carros ao nosso redor (o que talvez explique a diminuição de buzinadas, de nove para três) e menos tempo parado nos semáforos.

 

Eu também estava mais seguro pedalando, menos preocupado em cair. Isso significa que curti mais, mas não evitou um susto, a apenas duas curvas do meu destino (o UOL). Quando estávamos cruzando a av. Brigadeiro Faria Lima, um carro que estava atrás de mim, na diagonal (eu na faixa do meio, ele na faixa da direita) virou abruptamente para a esquerda, "tirando uma fina" (passando perigosamente perto) de mim.

 

O Leandro, que estava na frente, mas olhando para trás, disse que o cidadão não se deu ao trabalho de dar uma seta, indicando que fosse virar. Ele também não estava na faixa da esquerda, o que seria o mais sensato. Ia pela direita, e se acertasse um carro, moto ou ciclista em sua virada brusca, eles que se entendessem no funileiro (o que, claro, deixa o ciclista e o motoqueiro em desvantagem).

 

Terminado o passeio, pensei em três coisas:

 

Olhando assim, parece que sou veloz, não? Mérito do fotógrafo, Flávio Florido- nos três percursos que já fiz (ir para o trabalho ontem; voltar para casa ontem; vir para o trabalho hoje), pensei ter feito todos em 15 minutos, aproximadamente. Três vezes errado: foram 34 minutos na ida de ontem, 37 minutos na volta de ontem e 32 minutos na vinda de hoje. Talvez por ser mais agradável que dirigir, ou talvez por evitar o estresse de dirige, pára, dirige, pára do trânsito paulistano, acabei não percebendo o tempo passando. O tempo é relativo... (Eu batizaria essa idéia de Teoria da Relatividade, mas parece que Albert Einstein chegou um pouco antes; além disso, tenho certeza de que o mundo inteiro já sabe que quando fazemos algo agradável [jogar futebol, por exemplo], o tempo "voa", e quando fazemos algo contrariados [um megacongestionamento, por exemplo], o tempo "se arrasta".)

 

- pensei também sobre como foi diferente o tratamento dos motoristas de ontem (mais tensos) comparado aos de hoje (menos tensos). Tenho a impressão de que acidentes acontecem em qualquer cidade, mas que em lugares como São Paulo o a fluidez do trânsito e o comportamento do motorista são ainda mais imprevisíveis. Será que depende do horário de saída? Do dia da semana? Do mês do ano? Do caminho? Do clima? Do trânsito que os motoristas enfrentam ao sair de casa? São fatores demais. Me lembra a Teoria do Caos - e o caos é uma palavra que cai bem para a cidade que, mesmo teoricamente aderindo ao Dia Mundial Sem Carro, tem trânsito 25% acima da média das 5 segundas-feiras anteriores.

 

- já havia notado ontem, e hoje se repetiu. Quando estávamos, Leandro e eu, na faixa da direita (a mais lenta), alguns motoristas ficavam irritados apenas por estarmos lá. E eles demonstravam o quanto ficavam incomodados ao nos ultrapassarem, quando faziam questão de pisar fundo, fazendo um barulhão no motor, ou cantando pneu, em uma espécie de rugido animal de "este território é meu" ou de "estou passando". Inevitavelmente, nos encontrávamos no próximo semáforo. Não sei que nome descreve esse tipo de comportamento. Complexo de superioridade? Ou de... inferioridade?

Por Pedro Cirne, zona oeste

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22/09/2008

Bicicleta como meio de transporte, dia 1: 5,3 km, 9 buzinadas e 1 freada brusca em cima

Meu primeiro dia desta semana em que troco meu carro por uma bicicleta pode ser resumido em poucos números: 5,3 km, 9 buzinadas e 1 freada brusca em cima, que rendeu insultos como "imbecil" e ordens como "vá pedalar na calçada!".

Mesmo vestido assim, eu estava invisível aos motoristas e pedestresPara começar pelo início: não foi uma mudança feita de uma hora para a outra. Não gosto muito de dirigir, apenas acho mais prático. Prefiro ir de ônibus, lendo, a dirigir e ficar estressado com a agressividade e a estupidez de uns poucos motoristas, mas que fazem barulhos e estragos como se fossem muitos. Entretanto, há lugares para onde ir de carro é mais prático do que de ônibus, como o lugar em que jogo bola semanalmente e a casa da minha namorada. Acabo, portanto, passando mais tempo dentro do meu carro do que de um ônibus.

Então, a oferta de "topas encostar seu carro e vir e voltar de bicicleta por uma semana" foi prontamente aceita. Tive regalias: um amigo (e ativista a favor do ciclista urbano) emprestou-me a bicicleta, o capacete, as luvas e outros acessórios a mais. Além disso, ofereceu-me para me acompanhar na ida e na volta, ensinando-me alguns macetes para pedalar em São Paulo.

O fato de ter alguém junto ajudou bastante. Primeiro porque ele me levou acessórios que ajudam bastante e nos quais eu certamente não teria pensado sozinho. Segundo, pelas dicas - coisas como "pedalar por São Paulo é como dar as costas para alguém que você não confia!"; "não importa o quanto como você esteja vestido ou o quanto você sinalize, você sempre será invisível aos olhos de um motorista ou motociclista"; e "motoristas não dão seta e falam muito ao celular, então, cuidado".

Após as primeiras instruções, saímos. A primeira buzinada, para minha surpresa, demorou menos de cinco segundos. Saímos na avenida Professor Alfonso Bovero, na zona oeste de São Paulo, e menos de meia quadra depois um motorista já nos buzinou. Afinal, imagino, ele tinha pressa. Não creio que tenha adiantado muito. Nos encontramos lá na frente, com ele parado no semáforo. Isso aconteceu também com todos os outros oito que nos buzinaram neste pequeno percurso de 5.340 metros, média aproximada de uma buzinada a cada 600 metros.

Ainda nos números: normalmente, demoro 20 minutos (de carro) ou 25 minutos (de ônibus) de casa até o trabalho. Hoje, demorei 34 minutos, dos quais pedalei por 25 minutos e 40 segundos, sendo que fiquei parado por pouco menos de nove minutos em semáforos - sei com precisão porque o ciclocomputador da bicicleta que o Leandro me emprestou marcou. Minha média de velocidade foi de 12,3 km/h, e meu "momento Schumacher" foi a velozes 24 km/h.

Único momento mais tenso: na rua Arthur de Azevedo, pedalávamos pela faixa da direita, conversando, com a faixa da esquerda completamente aberta, para os que tivessem pressa. Um pequeno caminhão da Rubens Decoração vinha atrás de nós e, em vez de nos ultrapassar, preferiu buzinar e, não satisfeito, acelerou o carro e freou em cima do Leandro (eu estava mais para a direita). Uma estupidez, claro. Um leve toque no pneu traseiro dele e teríamos um acidente. Leandro, com cinco anos de ciclismo urbano por São Paulo nas costas, deu a volta e foi tirar satisfações com o motorista. Enquanto isso, um pedestre que viu a cena gritou para o motorista do caminhão: "seu imbecil!".

Detalhe para tentar ficar mais visívelO semáforo estava fechado (aquela buzinada, como as oito anteriores, foi inútil). Leandro se aproximou do motorista e perguntou se havia algum problema. O motorista foi rápido: "vá pedalar na calçada!" Afinal, na cabeça dele, lugar de bicicleta é na calçada, com os pedestres, e não na rua, atrasando em dois segundos o tempo que ele levaria para chegar ao semáforo fechado, onde ficaria inevitavelmente parado.

Para fechar meu primeiro relato, uma coisa que observei neste primeiro percurso: Leandro tinha razão, o ciclista é aparentemente invisível ao motorista. E, aparentemente, aos pedestres também. Nestes 35 minutos de pedaladas, mesmo com o sinal vermelho para eles, nenhum pedestre esperou que cruzássemos para atravessar a rua. Se havia algum carro atrás de nós, eles aguardavam; se não, atravessavam numa boa, nós que desviássemos.

Por Pedro Cirne, zona oeste

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A idéia

Na semana em que é comemorado o Dia Mundial Sem Carro (22 de setembro), uma equipe de jornalistas do UOL que costuma usar carro diariamente abrirá mão de seus veículos para observar e comparar as vantagens e desvantagens de viver no dia-a-dia usando transporte coletivo, bicicleta ou outros meios alternativos para se locomover. Diariamente, até sexta-feira, as impressões dos cinco jornalistas serão publicadas neste blog.

Gabriela Sylos Gabriela Sylos
Zona oeste, Pompéia
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Irineu Machado Irineu Machado
Zona sul, Vila Mariana
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Pedro Cirne Pedro Cirne
Zona oeste, Perdizes
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Thays Almendra Thays Almendra
Zona leste, Tatuapé
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Alessandro Giannini Alessandro Giannini
Los Angeles, EUA
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