O último dia em Los Angeles
Antes de mais nada, uma correção. Em um dos meus primeiros posts aqui em Los Angeles, escrevi que uma alternativa à passagem normal de US$ 1,25 seria o "Day Pass", que dura pelo período de 24 horas, a partir das 10h. Só que o valor que passei está defasado: são US$ 5 e não US$ 3, como havia escrito.
Dei-me conta disso hoje, quando peguei o 212 na volta de Sta Monica Boulevard com La Brea, onde fui comprar um presente para o meu filho - depois de passar a manhã inteira em um estúdio de maquiagem e efeitos especiais de Henry Berger (Oscar por "As Crônicas de Nárnia - Príncipe Caspian"). Depois de depositar três dólares na máquina, ela avisou delicadamente que faltavam mais dois dólares.
Aliás, isso vale um parêntese rápido. Em geral, em Los Angeles - e nas grandes cidades dos Estados Unidos - o ofício de motorista de ônibus é exercido por muitas mulheres. E posso testemunhar que, ao contrário do preconceituoso senso comum, elas são ótimas condutoras, além de levarem a sério o trabalho. Fazer piada ou gracinha com essas senhoras é altamente contra-indicado.
Essa que cobrou os dois dólares a mais pelo "Day Pass" foi uma das poucas que me recebeu no seu local de trabalho com um sorriso. "Como vai o senhor, hoje?", perguntou ela. Fiquei tão surpreso com a gentileza que entreguei o dinheiro para ela. Ao que ela me respondeu, com uma piadinha: "Na máquina, por favor; eu não toco em dinheiro, baby".
Depois de deixar as coisas no hotel, no fim do dia, voltei ao The Groove, um shopping ao ar livre próximo de Beverly Hills, para assistir ao novo filme de Ed Harris, "Apaloosa", que recebeu (merecidas) boas críticas na imprensa americana. Desta vez, à bordo do 780, que é vermelho, o que indica que faz parte das linhas rápidas. Em pouco mais de dez minutos o coletivo percorreu quase três milhas, mais ou menos uns cinco quilômetros.
Los Angeles, essa cidade de 13 milhões de habitantes, dos quais mais de 3 milhões vivem na área metropolitana, consegue ter um sistema de transporte público eficiente - especialmente para a camada da população que o usa mais freqüentemente. Pode-se ir de um extremo ao outro com certa facilidade, mesmo que isso signifique ir até Venice Beach - já fiz esse trajeto. Quando o destino extrapola os limites da área metropolitana, as coisas ficam mais difíceis. Mas não impossíveis.
Embora a cidade tenha sido planejada para os carros, há uma preocupação em facilitar a vida de quem usa transporte público - especialmente os ônibus, já que a rede subterrânea do metrô é limitada. Há várias empresas operando, os trajetos cobrem grandes áreas e são facilmente compreensíveis - basta dois dias para entender como tudo funciona. Em São Paulo, por exemplo, um estrangeiro precisa de um curso para saber como funciona o transporte público - e isso inclui o Metrô, que tem fama de ser bem estruturado. Falo como usuário - bissexto, com certeza - e não como um especialista.
Espero que tenha passado uma idéia de como as coisas funcionam por aqui. E anuncio que como resolução de ano novo vou colocar entre as minhas prioridades deixar o carro em casa. Podem cobrar.
(Escrito no fim de uma semana muito corrida e de muito trabalho, que incluiu momentos bem divertidos, como uma visita à Pixar e o contato com um dos mais competentes especialistas em maquiagem e efeitos especiais para cinema.)

COMUNICAR ERRO
Demorou. Uns dez minutos. Uma senhora me perguntou se era ali mesmo o ponto para ônibus na Paulista. Eu disse que sim, pelo que me informaram outros passageiros no ponto. Chegou o 875M-Perdizes. Subi, sentei no último banco. Ouvindo música, lendo, o trânsito fluía na Paulista.
Desci na parada Frei Caneca, na Paulista, e não precisei esperar: peguei meu terceiro ônibus, o Parque Continental. Só que... erreeeeei... Me confundi com uma dica da Cíntia (mais tarde, ela me disse que o correto para mim seria o ônibus Shopping Continental. Confiei demais na memória e não tomei nota, por isso errei). O ônibus entrou na avenida Doutor Arnaldo, que estava completamente parada. Desci na altura do início da rua Teodoro Sampaio. Fui para o lado oposto e, no ponto de ônibus que não tinha nenhuma informação sobre os ônibus que por ali passavam, esperei algum que fosse pela avenida Rebouças. Parou um, e perguntei ao motorista se algum dos ônibus daquele ponto descia a Rebouças. "Não, aqui nesse ponto, não. Só lá na frente, depois do hospital", me orientou ele. Fui andando até a Rebouças. Vendo a Doutor Arnaldo praticamente parada nos dois sentidos. O relógio-termômetro da rua já marcava 12h45. Já fazia uma hora que eu havia saído de casa. Que dia...
Na passarela de acesso ao corredor de ônibus da Rebouças, a menos de dez dias das
Resumindo esses cinco dias em números: pedalei por 55,89 quilômetros, em um total de 4 horas e 12 minutos... Média de velocidade: 13,25 km/h - muito longe de um Lance Armstrong, eu admito, mas velocidade não era uma meta.
Saí da Metodista ao 12h20 e encontrei o Flávio Florido, o editor de fotografia do UOL - assim começou a caminhada até o ponto, que fica a cinco minutos da faculdade. Encontrei a Ana, uma menina da minha sala com quem converso pouquíssimo. Pois descobri que ela pega o mesmo ônibus que eu, o Metrô Saúde, e que há uma outra linha que vai para o meu destino. Ótimo.
Hoje meu ônibus passou após 15 minutos de espera. Entrei e o Florido começou a fotografar. Uma senhora me disse: "Olha, esse cara está filmando. Como assim?". Eu dei risada e expliquei que ele só tiraria foto de mim. As pessoas ficaram muito desconfiadas com a situação. 
O ônibus chegou em seis minutos. Este foi o maior tempo que esperei pelo transporte nesta semana, ou seja, o tempo de espera definitivamente não foi um problema ao abandonar o carro. Sim, sei que também sou privilegiada de morar em um bairro bem localizado de São Paulo e, portanto, com um serviço de transporte público eficiente.
O ambiente, um prédio que se parece muito com um grande armazém, tem um grande lobby cheio de resturantes, cafés, uma sala de jogos e até uma lojinha onde se podem comprar bugingangas com o selo da casa. Nesse mesmo ambiente, há várias mesas e salas de estar que podem ser ocupadas a qualquer momento por funcionários ou visitantes. Adrienne Ranft, funcionária do estúdio, explica que a empresa estimula o contato humano - nada de memorandos, e-mails ou ferramentas de comunicação online. O que vale, ali, é o olho no olho.
Adrienne contou também que no prédio há uma sala de massagens e uma pequena academia. Nas áreas comuns, fora do prédio, muito verde, uma piscina e um campo de... futebol - sim, os funcionários podem usar o tempo livre para nadar ou jogar bola. "Na semana passada, alguns visitantes estavam aqui quando, por acaso, havia um jogo de futebol acontecendo e muitos funcionários estavam usando a piscina", contou ela. "Um desses convidados me perguntou se em algum momento se trabalhava por aqui!" Estimular os funcionários dessa forma também está entre as condições necessárias para que se crie uma política ambiental consistente.
...cheguei atrasado para a conversa. Saí correndo de casa para não chegar atrasado aqui no UOL e, quando vi, Leandro e a simpática dona Maria Lúcia, 66 anos, contando que pedala desde 1988, que mora em Perdizes (mesmo bairro que eu), que encara ladeiras acima e abaixo numa boa (confesso que fiquei impressionado) e que a bicicleta dela tem uma só marcha, diferente da bicicleta que me emprestaram, que tem mais marchas do que a Hidra de Lerna tem cabeças.
Vendedor - Três carros a menos, hein?
Primeiro fomos até o metrô porque eu queria recarregar o bilhete único.
Depois pegaríamos a linha 847P-10 Itaim Bibi que nos deixaria na porta do UOL,
na Faria Lima. No trajeto, o Flávio foi me fotografando. Quando paramos
para atravessar a rua, fomos abordados por um homem que queria saber por que
tínhamos fotografado o carro dele. Expliquei que éramos jornalistas, que
estávamos fazendo uma reportagem, mostrei o crachá do UOL, e disse que se o
carro dele saiu na fotografia foi apenas porque estava ali na rua
que, afinal, é pública. Ele insistiu que deveríamos mostrar as fotos e
apagar o registro do carro dele. O Flávio, de forma paciente, mostrou as
imagens, explicou novamente o que estávamos fazendo. O homem nos ameaçou, disse
que ia atrás da gente, mas foi incapaz de anotar nossos nomes e telefones -
mesmo depois de eu insistir. Ficamos ali alguns minutos discutindo com o
sujeito, mas foi inútil. Deixamos ele falando sozinho. Passado este percalço,
seguimos para o metrô.
Eu nunca tinha recarregado um bilhete único, portanto nem sabia onde
fazer isso na estação. Mas logo identificamos uma cabine de recarga. Tinha uma
pequena fila com cinco pessoas. Na minha vez, perguntei à atendente qual o
mínimo de crédito que eu poderia colocar. Ela disse com desdém: "R$ 1". Coloquei
R$ 20, mas acho que exagerei, R$ 10 já eram suficiente. Enfim, o processo de
recarga demorou 5 minutos.
O trajeto foi mais rápido, já que a linha que eu pego na Pompéia
percorre vias mais movimentadas como a av. Professor Alfonso Bovero, a av.
Doutor Arnaldo e a r. Cardeal Arcoverde. No caminho de hoje passamos pelas
ruas da Vila Madalena e só chegamos na Cardeal no trecho que geralmente não tem
trânsito.
Nesta noite, topei seguir o conselho de algumas pessoas. Ao sair do UOL, peguei o ônibus Anhangabaú, que pára na estação de metrô com o mesmo nome. A Anhangabaú fica na linha vermelha (Leste-Oeste), a mesma que a Tatuapé. O ônibus estava vazio, consegui entrar e me sentar sem dificuldades. Passando dois pontos, o ônibus começou a encher de tal maneira que até quem estava sentado se sentia esmagado e sufocado.
Enquanto passávamos na catraca comecei a conversar com a mulher, ela ia para o metrô Corinthians-Itaquera e de lá pegaria mais dois ônibus. No total, demoraria 2h15 para chegar em casa. Essa era a rotina dela. Se calcularmos, ela estaria em casa por volta da 00h30. Além disso, teria que acordar às 6h para mais um dia de trajeto com transporte público.
Virei à direira na rua Rodésia e andei mais um quarteirão até chegar à rua Girassol, onde fica a academia. A chuva parou e até abriu uma nesguinha de sol. Cheguei em 15 minutos, e ainda restavam 15 para começar a aula.
Até a av. Faria Lima existia todo o tipo de comércio. O bom (ou ruim) é que você lembra das coisas que precisa comprar. Ou pagar, como a fatura do cartão de crédito. Entrei em uma agência no meio do caminho e paguei. Também tentei colocar crédito no meu celular pré-pago, mas o sistema estava fora do ar. O melhor disso tudo é que não precisei procurar vaga para estacionar o carro.
Eu não estava 100% e quando você está gripada tudo fica um pouco mais difícil. Dentro do ônibus, eu via as pessoas correndo do chuvisco e alguns se protegiam como podiam, até com saco de mercado na cabeça alguns estavam. Acho que neste momento senti uma saudade do meu carro. Eu já contei? Ele tem nome e é meu companheiro dos momentos mais difíceis (risos).
A única vez em que vi um motorista de carro puxar assunto com outro (estou excluindo os insultos - ninguém ofende uma pessoa que não conhece para iniciar uma amizade) foi na rua Turiassu, aqui em São Paulo. Eu estava dentro de um ônibus que não saía do lugar havia cerca de meia hora; na outra mão, um cidadão estava vermelho-quase-vinho de tão estressado - suponho que também estivesse parado por cerca de 30 minutos. A certo momento, o motorista do carro baixou o vidro de sua janela e gritou para o motorista do ônibus: "você é que é macho, viu? Muito macho!". Acredito que ele se referia ao fato de um motorista de ônibus passar o dia inteiro encarando o trânsito paulistano.
Perguntamos o básico: há quanto tempo ela pedala, do que ela gosta, do que ela não gosta.
Eles não me conheciam e foram bem simpáticos nos cerca de 20 minutos em que seguimos juntos. Passamos em frente à casa do João, que se despediu e entrou. Seguimos em três e, a poucos minutos do destino, a minha casa, encontramos dois ciclistas que não conhecíamos, um rapaz e uma moça (que também não se conheciam entre si). Houve um momento "puxar assunto" bem interessante e, quando percebi, estava chegando em casa cercado por quatro ciclistas. À frente, Leandro e o rapaz, conversando entre si; um pouco atrás, Mig e a moça; por último, eu tentando me concentrar com aquelas marchas todas (21, na bicicleta que o Leandro me emprestou), tomando um baita cuidado para não cair.
Eu tinha
um compromisso profissional por volta das 10h. Sabendo que o trânsito de São
Paulo é sempre pior entre as 7h e as 9h, me precavi, saindo mais cedo de casa. E
hoje tive a companhia do editor de fotografia do UOL, Flávio Florido, que
registrou algumas imagens do meu trajeto. Escolhi de uma estante um livro com
vários textos curtos, também imaginando que não teria uma leitura ininterrupta
no percurso, em que há trechos a pé, de metrô e de ônibus: "O Livro dos Sonhos",
uma compilação em que Jorge Luis Borges reúne sonhos descritos por ele e por
outros autores de várias épocas. Cabe no bolso, fácil de
levar.
Enquanto o trem não chega, começo a ler o livro, às 8h35. O trem chega
quando termino o quarto parágrafo de "História de Gilgamesh", um conto
babilônico do segundo milênio A.C. Em pé, no interior do trem, continuo a
leitura. As estações vão chegando e o vagão vai lotando. Muita gente em pé, mas
não chego a ficar espremido e é possível manter a leitura do livro. Até a
estação Consolação, onde desci às 8h47, foi possível terminar o primeiro conto e
dar uma bisbilhotada em outros textos do livro ("O Sonho de Coleridge",
"Dreamtigers", "O Sonho do Petróleo", todos curtinhos...). Uma multidão sobe as
escadas rolantes para a saída na avenida Paulista.
Lá fora, uma leve garoa. Em mais uma alteração de percurso em relação
aos dias anteriores, hoje segui uma dica que o Felipe Vita, o "Felps", colega de
trabalho que também mora na zona sul, me deu ontem à noite antes de ir embora:
pegar um ônibus na própria avenida Paulista (evitando, assim, uma caminhada mais
longa até a rua da Consolação). Chegamos ao ponto às 8h51 na parada que leva o
nome de Augusta-Centro, que fica do lado oposto ao prédio do Conjunto Nacional,
um dos marcos da avenida Paulista. Chequei numa placa se estava no lugar certo.
Sim, as linhas de ônibus indicadas pelo Felps passavam todas por ali. Mas
demorou. O primeiro dos quatro ônibus que me serviriam chegou após dez minutos
de espera. Tem certeza que era melhor, Felipe?, pensei. Talvez a leve chuva
tenha causado um atraso acima do normal nos ônibus.
Descendo a Rebouças, pude ler mais quatro contos até chegar ao meu
ponto final, perto do UOL. Em pé, até o cruzamento com a Henrique Schaumman.
Depois, sentado, até o ponto da Faria Lima, onde desci às 9h14. Foram 50 minutos
de casa até o trabalho: a jornada mais longa até agora, desde segunda-feira.
Conclusões positivas: sim, é possível ler (mesmo que pouco, muito mais que
dirigindo um carro). O Flávio Florido até que curtiu a experiência, mas não
creio que ele vá abandonar sua rotina de vir de moto para o trabalho: ele leva
só DEZ minutos para chegar do centro a Pinheiros!
O vôo
de conexão para Los Angeles estava marcado para às 7h20, horário local. Chegamos
na imigração às 6h40 e encontramos os passageiros de mais dois vôos oriundos da
América Latina, um do Chile e outro da Argentina. A fila serpenteava por quase
um quilômetro dentro da sala. E éramos os últimos nesse grande congestionamento
humano controlado por funcionárias da imigração e aliviado aos poucos pelo
trabalho dos agentes do departamento.
Como a rotina pode influenciar tanto em pequenas atitudes... O casal se beijava da mesma forma que ontem e eu passava a pé por eles do mesmo jeito que ontem. A repetição das atitudes faz com que não reparemos e façamos tudo sempre igual. Ao meu ver, isso é um erro. Deveríamos mudar pelo menos um detalhe em nosso cotidiano. Que tal cumprimentar uma pessoa que nunca vimos?
Da estação Clínicas até o ponto de ônibus no corredor da
avenida Rebouças, a caminhada é um pouco mais longa que a de ontem (da estação
Consolação ao ponto de ônibus da rua da Consolação). Da passarela que dá acesso
ao ponto no corredor, notei que o trânsito não estava ruim na avenida.
Essas diferenças são facilmente explicáveis: meu "guia" Leandro e eu optamos por um caminho maior, mas mais arborizado. Afinal, uma das vantagens de andar de bicicleta é não ter apenas a preocupação em chegar, mas também a possibilidade de desfrutar o caminho.
- nos três percursos que já fiz (ir para o trabalho ontem; voltar para casa ontem; vir para o trabalho hoje), pensei ter feito todos em 15 minutos, aproximadamente. Três vezes errado: foram 34 minutos na ida de ontem, 37 minutos na volta de ontem e 32 minutos na vinda de hoje. Talvez por ser mais agradável que dirigir, ou talvez por evitar o estresse de dirige, pára, dirige, pára do trânsito paulistano, acabei não percebendo o tempo passando. O tempo é relativo... (Eu batizaria essa idéia de Teoria da Relatividade, mas parece que Albert Einstein chegou um pouco antes; além disso, tenho certeza de que o mundo inteiro já sabe que quando fazemos algo agradável [jogar futebol, por exemplo], o tempo "voa", e quando fazemos algo contrariados [um megacongestionamento, por exemplo], o tempo "se arrasta".)
Um pouco mais acordada, segui até o ponto e em um minuto, literalmente, o ônibus chegou. Nesse horário, diferente de ontem às 12h, havia menos crianças no percurso e restavam mais lugares vazios. Puxei assunto com o cobrador para saber se havia uma outra linha que percorria a avenida Faria Lima, onde fica o prédio do UOL. Um colega do trabalho, e também morador da Pompéia, tinha mencionado essa linha, que deixa a gente na frente do trabalho e economiza dez minutos de caminhada pelo Largo da Batata. Mas o cobrador não conhecia. Depois tenho de checar o itinerário no site da SPTrans.
No cruzamento da rua Apinagés com a Heitor Penteado, uma senhora de seus 60 e poucos anos pediu para o motorista abrir a porta. Estávamos parados e o ponto era cerca de dois quarteirões longe dali. Ela pediu uma vez. Falou mais alto na segunda, sempre pedindo por favor. E o motorista nada, fingiu que não escutou. A senhora ficou reclamando baixinho e foi descer só no ponto, voltando a pé o trecho que ela queria economizar. Em São Paulo, a maioria dos motoristas leva ao pé da letra a regra que os proíbe de parar fora dos pontos "oficiais".
Parei no mesmo ponto, aquele do Largo da Batata, e, como ontem, demorei 10 minutos caminhando até o trabalho. Ontem eu comentei sobre as barraquinhas dos camelôs, então hoje coloco uma foto (acima) que mostra a situação "apertada". Para minha surpresa, os pedestres agora dividem espaço também com um buraco enorme aberto na calçada: parecia algum conserto de tubulação. Procurei alguém para me informar sobre o motivo do reparo e sobre quando o buraco seria tapado, mas não havia funcionários no local.
Comprei o passe, desci as escadas rolantes e pensei: - Para qual lado eu devo ir? Deparei-me com um placa que sinalizava o metrô Paraíso, sentido Alto do Ipiranga. Ufa. Estou do lado certo. No local do embarque, havia inúmeros adolescentes e jovens cantando, conversando. Entrei no meio deles e tomei o vagão. Não consegui lugar para sentar e fiquei viajando nos meus pensamentos. Acho que ao volante a preocupação é constante. No metrô, esperar é um hábito. E foi o que fiz. Fiz duas baldeações, uma no metrô Paraíso, sentido Tucuruvi, e outra na estação Sé.
A forma mais simples de ir de casa para o trabalho – meu primeiro deslocamento da semana sem carro, às 11h45 desta segunda – é de ônibus: existe um ponto a menos de um quarteirão do prédio em que moro. O ponto significa um poste de madeira descascado, sem cobertura, nem banquinhos, nem placa de itinerários. Com o vento frio, ficar sob o sol durante dez minutos não foi tão ruim. A outra pessoa que aguardava o ônibus junto comigo, entretanto, preferiu se enfiar dentro da cabine de telefone ao lado.
Para começar pelo início: não foi uma mudança feita de uma hora para a outra. Não gosto muito de dirigir, apenas acho mais prático. Prefiro ir de ônibus, lendo, a dirigir e ficar estressado com a agressividade e a estupidez de uns poucos motoristas, mas que fazem barulhos e estragos como se fossem muitos. Entretanto, há lugares para onde ir de carro é mais prático do que de ônibus, como o lugar em que jogo bola semanalmente e a casa da minha namorada. Acabo, portanto, passando mais tempo dentro do meu carro do que de um ônibus.
O semáforo estava fechado (aquela buzinada, como as oito anteriores, foi inútil). Leandro se aproximou do motorista e perguntou se havia algum problema. O motorista foi rápido: "vá pedalar na calçada!" Afinal, na cabeça dele, lugar de bicicleta é na calçada, com os pedestres, e não na rua, atrasando em dois segundos o tempo que ele levaria para chegar ao semáforo fechado, onde ficaria inevitavelmente parado.
Desci as escadas rolantes e o trem que eu pegaria acabara de sair, às 10h32. O trem seguinte chegou quatro minutos depois. Ele vem da estação Alto do Ipiranga. Estava tão vazio que pude contar o total de passageiros no meu vagão: 11 pessoas, eu incluído, em pouco mais de 60 assentos no vagão. O trem ficou parado na estação por cerca de um minuto. Nas estações seguintes, o movimento foi muito maior. Na Ana Rosa, contei cerca de 30 pessoas entrando no vagão. No Paraíso, foi gente demais: impossível contar. Já não havia mais assentos vagos e muita gente estava em pé. O condutor avisa pelo sistema de som: "Abra espaço para o embarque. Utilize o corredor." Na estação Brigadeiro, poucos desceram e poucos entraram. De novo, aviso do condutor: "Não segurem as portas. 70% dos atrasos no metrô acontecem porque as pessoas seguram as portas." Na estação Trianon, também desceram e entraram poucos passageiros. Mais um aviso no sistema de som: "Se você não vai desembarcar na próxima estação, evite a região das portas." Chegou a minha estação de desembarque: Consolação, cuja saída fica na avenida Paulista. A maioria dos passageiros desceu lá.






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